Mesmo para quem não é fã de filmes de terror, as Hqs de zumbis de Robert Kirkman são obrigatórias. Apesar da série de TV de The Walking Dead fazer sucesso na televisão americana, é nos quadrinhos que Kirkman mostra sua força. Contando a história do policial Rick Grimes, que acorda do coma após levar um tiro em um mundo tomado por criaturas comedoras de carne humana e parte em busca da família, o autor mistura as já conhecidas referências sociais e políticas para as criaturas que rastejam com muita sangueira.
O impacto de cada edição e o domínio narrativo do escritor são impressionantes. Há um crescendo de angústia e loucura sem fim e ninguém está a salvo aqui. Mesmo. E o que sobra, impressionantemente, é a vontade de ler mais e mais. No Brasil, a série vem sendo publicada pela HQ Maniacs. E não se apegue a nenhum personagem. Sério.
Em 1993, Jurassic Park chegava aos cinemas. Embora não tivesse conhecimento, eu assistia no extinto Cine Palácio àquele que seria o último filme realmente divertido de Steven Spielberg em um período de quase vinte anos. Um hiato que não foi quebrado nem com o carisma de Indiana Jones. Faltava um frescor, um cheiro de novidade... Nem as incursões pelo drama se salvaram. A Lista de Schindler e Munique são bons, mas o gênero parece não combinar com Spielberg. A mão fica pesada e ele resvala no melodrama por diversas vezes, prejudicando o resultado final. Mas agora, em 2012, ao contar as peripécias de Tintim, o cineasta está em casa e entrega o que dele sempre se espera: uma grande e divertida aventura. As aventuras de Tintim é uma adaptação da famosa série de histórias em quadrinhos criadas pelo cartunista belga Hergé. Realizar o filme era um antigo sonho de Spielberg, que teve uma dupla barreira: primeiro, vencer a hesitação dos estúdios em relação ao projeto, pois Tintim não era tão popular nos EUA para justificar o alto custo da produção. E depois esperar a técnica de captura de movimentos alcançar elevado patamar para, enfim, tirar a ideia do papel. Decisão acertada, já que, ao olhar em retrospecto, O Expresso Polar, primeira obra a utilizar tal tecnologia, empalidece e surge artificial diante da complexidade de Tintim, cuja animação não desvia o foco da narrativa, ao contrário, é orgânica, serve ao trabalho do ator, não o “apaga” digitalmente. E este é um ponto fundamental, pois o filme não para nunca, a ação é contínua. Desde o momento em que o protagonista é apresentado (revelado num desenho pelo “próprio” Hergé – uma grande sacada) ocorre uma sucessão de fatos que não deixam espaço para respiros. Tanto é assim que um recurso dos quadrinhos é bastante utilizado aqui: Tintim pensando alto. Normalmente, uma exposição desnecessária em cinema, onde é melhor mostrar do que contar. Mas perdoável, pois obviamente não se trata de desleixo e sim de uma opção em prol do dinamismo da história, que leva Tintim, um jovem e entusiasmado repórter, cujo heroísmo está no sangue, a uma perigosa jornada pelo mundo. Spielberg se mostra tão à vontade na direção que parece brincar com a câmera, deixando a criatividade guiar várias sequências, que certamente estão entre as melhores da sua carreira (e isso não é pouca coisa, afinal estamos falando do cara que criou Caçadores da Arca Perdida, Tubarão e Encurralado, entre outros ícones do cinema). Assim, somos brindados com fusões inspiradíssimas que unem passado e presente durante as lembranças do capitão Haddock, além da empolgante perseguição pelas ruas da cidade-fictícia Bagghar, num plano-sequência de roer as unhas. O diretor também usa o 3D de forma apropriada e não como mero enfeite, investindo na profundidade de campo em cenas importantes da trama. Com um gancho escancarado para uma continuação, que terá Peter Jackson na direção e Spielberg na produção – numa inversão de funções em relação a este primeiro filme –, As aventuras de Tintim cumpre seu papel com louvor, portanto: dá vida a um personagem clássico dos quadrinhos - que há tempos merecia uma adaptação - e, mais do que isso, devolve o verdadeiro Steven Spielberg ao público. Esperar grandes filmes de grandes cineastas é uma aposta certeira. Pode até demorar vinte anos, mas um dia a recompensa chega.
Na era da internet, colocar um filme em evidência é muito fácil. Notícias saem a cada instante em sites especializados em cinema, fora os teasers, vídeos de bastidores, entrevistas... A divulgação é maciça. O pessoal de marketing trabalha pesado para vender com sucesso um longa-metragem e, geralmente, consegue, mesmo quando a qualidade da obra é discutível. Agora, imagine antigamente, sem todas as inúmeras ferramentas tecnológicas disponíveis hoje. Além do carisma dos atores principais e da boa reputação dos diretores, os estúdios contavam apenas com uma plataforma para chamar a atenção do público: os pôsteres. Por esse ângulo, o pôster, embora ainda seja produzido normalmente, é uma arte que perdeu um pouco do fascínio e da importância de tempos passados. Ele deixou de ser “a” imagem de um filme para ser mais um detalhe de um extenso material de divulgação. E isso pode ser constatado com um simples jogo de memória: diga um pôster inesquecível, que tenha ficado na sua cabeça nos últimos dez anos. Difícil, não? Agora lembre de filmes clássicos como Tubarão, O Bebê de Rosemary, O Exorcista... Duvido que eles não estejam em algum lugar do seu subconsciente. Fazer um pôster é trabalho para verdadeiros artistas: resumir em um desenho, em uma pintura, toda a carga simbólica de um longa-metragem. Exige criatividade e talento. São obras de arte. Não é à toa que os mais clássicos valem uma fortuna para colecionadores. E também não é coincidência o fato de os citados no parágrafo acima terem em comum o gênero a que pertencem. É no suspense/horror que os artistas mais desenvolveram sua capacidade, com a representação dos medos e delírios ali expostos, seja na forma de monstros, assassinos, fantasmas, demônios ou outros seres que povoaram a imaginação de cineastas e dos espectadores ao longo dos anos. O expressionismo alemão é, talvez, um dos principais expoentes dessa era clássica dos pôsteres, acompanhando à perfeição obras como M – O vampiro de Dusseldorf, Nosferatu, O Gabinete do doutor Caligari... Fora a inventividade do chamado segundo escalão do cinema norte-americano. Os filmes B marcaram época com seus pôsteres muitas vezes bem melhores do que os próprios filmes. Sem contar que a arte em cor constrastava com a película em preto e branco. Uma picaretagem digna dos produtos em questão e que entraram para o folclore cinematográfico. Quando era pequeno, meu irmão inventou de montar uma locadora de VHS em um cômodo anexo à casa do meu avô e vivia tentando arranjar pôsteres para colocar nas paredes. A ideia não durou muito, até se converteu para games antes de encerrar, mas era bacana, curtia ver aqueles filmes à mostra. E que adolescente não tapou todos os espaços livres do seu quarto com pôsteres? Eles têm, portanto, valor sentimental para muita gente e é uma pena que esse trabalho hoje não seja mais valorizado, deixando de lado o traço humano pela rapidez e artificialidade de um programa de computador para a sua concepção. Triste era moderna...
Situações extremas tendem a revelar a verdadeira face das pessoas. Se esconder atrás de palavras não é mais uma alternativa válida, são as atitudes que contam em um mundo tomado pelo caos e pela incerteza. Muitos perdem qualquer resquício de humanidade, se tornam amargos, egoístas. Outros se agarram àqueles que amam, família e amigos, vendo nessa relação de cumplicidade uma maneira de manterem-se “vivos”, com a esperança, embora remota, de que tudo volte a ser como antes. Quem está certo ou errado? A questão é mais complicada do que parece. Interessante ser esta uma das principais discussões em uma série de terror. O tema da sobrevivência em meio a um apocalipse zumbi poderia facilmente resultar em uma trama superficial, sem conteúdo, com base apenas em sustos e elementos clássicos do horror, em nada diferenciando da maioria das produções que chega aos cinemas durante o ano. Felizmente, não é o caso de The Walking Dead, que faz por merecer todo o barulho causado a cada novo episódio, com profundas incursões pelo lado mais primitivo do ser humano, dominado pelo instinto. A série deu um tempo no sétimo episódio da 2ª temporada e só volta em fevereiro. Todos os personagens ali são tridimensionais, possuem uma carga de complexidade rara no gênero. Seus dramas e conflitos saltam da tela e, certamente, encontram identificação no espectador. Maniqueísmo é algo que não existe. Todos têm seus motivos para ter determinado comportamento, por mais que não estejamos de acordo. E até essa nossa visão fica alterada, já que se trata de uma nova realidade. Será que julgar algo com uma visão "antiga" é o correto? Os conceitos de "bom" e "mau" permanecem inalterados? É uma discussão que pode se prolongar bastante. Shane, por exemplo, à primeira observação, é repulsivo. Um cara que deveria ser proibido de manter contato social, já que deixou a maldade, inerente a todo ser humano, reger a sua existência como forma de preservação. Mas as experiências aterrorizantes pelas quais passou poderiam ser consideradas atenuantes, não? Além disso, quem pode dizer, sem um pingo de dúvida, que não prejudicaria ou até mesmo mataria um desconhecido para salvar a vida de uma pessoa querida? Ele escolheu um lado, uma forma prática de sobreviver. Para ele, funciona. E o Rick? Um "mocinho" que toda vez que tenta fazer a coisa certa, acaba causando danos a alguém. É mais fácil fazer de Shane um vilão, mas se os mortos caminharão sobre a Terra quando o inferno estiver cheio, como dizem, Rick, com suas boas intenções, é um dos principais causadores desse extermínio. É difícil julgar. Agir como Shane pode até significar tornar-se um monstro, um zumbi, por assim dizer, sem sentimentos e ligações com o passado. Mas pode ser a única saída em tempos de crise. Quem sabe o apocalipse zumbi não é exatamente isso: o auge da degradação humana, quando o homem terá que recomeçar do zero o seu processo evolutivo e se aperfeiçoar como raça para não cometer os mesmos erros.
Uma história bem contada não precisa de efeitos especiais grandiosos para prender a atenção do público. E não importa se o filme em questão traz como tema um ataque alienígena, que, por conceito, carece de um mínimo de investimento que permita ao espectador se envolver com a trama, torná-la crível. Em “Guerra dos Mundos”, por exemplo, Spielberg torrou cerca de 200 milhões de dólares e o resultado foi apenas regular. O original, da década de 50, com parcos recursos, quase um filme B, obteve muito mais êxito nesse aspecto. Mas como sucesso de bilheteria é o fator levado em consideração pelos estúdios, não é exatamente uma surpresa que “Attack the block”, um filme inglês de baixo orçamento (13 milhões de dólares), nunca tenha chegado aos cinemas brasileiros. Ele não tem a “grife” hollywoodiana, embora seja produzido por Edgar Wright, responsável pelos excelentes “Todo mundo quase morto”, “Chumbo grosso” e “Scott Pilgrim contra o mundo”. Fora que não possui um Tom Cruise ou similar no elenco. O mais conhecido ali é Nick Frost, habitual colaborador de Wright. A direção é do desconhecido Joe Cornish. O filme começa com uma inversão de valores. Os mocinhos aqui não são pessoas virtuosas, com quem podemos nos identificar facilmente. São os chamados “trombadinhas”, que fizeram de um bloco de condomínio o seu território, roubando com violência os desavisados que passam por ali. Ao atacarem uma moradora, são surpreendidos por um asteroide, que acerta em cheio um carro próximo. O líder da gangue, Moses, aproveita para vasculhar o automóvel destruído atrás de alguma coisa de valor, mas se depara com uma criatura que o fere e foge. Inconformado, Moses parte à caça do que ele pensa ser uma espécie de porco-espinho e o mata. Ele leva o bicho para um traficante amigo seu analisar, já que o cara é fanático por Animal Planet e, quem sabe assim, faturarem uma grana. Mas, da janela do apartamento, Moses e sua gangue observam inúmeros asteroides caindo ali próximos. Não há dúvidas, é uma invasão. O filme possui um forte caráter social, que retrata a juventude marginalizada londrina e a relação desta com a polícia local. Mas é uma carga de dramaticidade que não tira o foco da diversão, ao contrário, a reforça, utilizando-a como muleta para movimentar a narrativa, fazê-la andar. Uma disputa de poder no condomínio, que ocorre paralelamente, também serve a este propósito. Mas esse contexto seria de pouca utilidade se as criaturas de “Attack the block” não causassem a tensão sugerida a todo instante. E como o orçamento não permitia grandes esforços da equipe de efeitos especiais, a opção foi por uma fotografia (por si só acinzentada para transmitir a melancolia que é viver naquele condomínio), mais escura quando os aliens surgem em cena, realçando sua capacidade destruidora com um intenso brilho azul das suas bocas. É simplesmente amedrontador. A inventividade do roteiro prossegue até o final, quando descobrimos o porquê da insistente perseguição aos jovens (ao lado da vítima do assalto no início - em mais uma sacada genial - que terá que confiar sua vida aos seus inimigos), já que, a priori, as criaturas teriam toda a Inglaterra para espalhar o terror. Enfim, é uma pena que “Attack the block” não chegue aos cinemas. São raros, hoje, os filmes de gênero que não insultem a inteligência do espectador. Parece que há uma regra implícita: para ser mainstream, é necessário vir mastigado. Ainda bem que existem as exceções e, claro, a internet para baixar essas preciosidades.
Estreia em número recorde de salas de cinema no Brasil o filme Amanhecer, o quarto da “saga” Crepúsculo. Algo inversamente proporcional à qualidade dessas adaptações. Mas o sucesso de público não chega a ser incompreensível. Os fãs da série são os mais xiitas que surgiram na última década. Não admitem críticas, defendem o produto de sua adoração com unhas e dentes. Mas ainda não encontrei um que não seja uma adolescente suspirando pelos cantos por causa do “vampiro” e do “lobisomem”. Menos mal. Elas vão crescer e ver como esse comportamento é ridículo. Até porque, elas, com certeza, não conhecem os vampiros e lobisomens de verdade. Os de Crepúsculo são uma afronta ao gênero do terror. Vampiros que brilham no sol, que passam a eternidade em escolas... Não dá pra engolir. Uma coisa é criar um mundo de fantasia, como Harry Potter, por exemplo, que não raro é comparado (injustamente, já que está a anos-luz em qualidade da trama de Stephanie Meyer) com Crepúsculo. Outra é se apropriar de elementos consagrados – artifício teoricamente mais fácil – e criar algo tosco, ruim, desrespeitando toda a mitologia que envolve os seres sobrenaturais. E antes que me acusem de detonar Crepúsculo por este ser “um romance e não terror”, argumento que já escutei diversas vezes, assistam “Drácula”, do Coppola. Aquilo, sim, é um romance. E mesmo fora do horror, muitas comédias, por exemplo, tratam esses ícones com mais propriedade do que Crepúsculo. E nem venham também com a história de que a protagonista é um exemplo de superação feminina, que ela conduz a narrativa, ao contrário dos clássicos. A vocês, digo: a Bella (sim, sei o nome) é uma abestalhada, que espera tudo acontecer. Vai contra todos os ideais de feminismo. Talvez até por isso haja tanta identificação. Ela, apesar de ser uma mulher feita, age como uma adolescente boba e imatura. Acho que se rolasse um papo entre a Bella e suas fãs do mundo real, o assunto não passaria de Hanna Montana e similares. Quem sabe até resolvam juntas um teste de revistas tipo Capricho ou Querida. Daqui a alguns anos, quem sabe, poderão falar sobre cinema. Mas falta muito pra isso.
Uma noite fria de julho. Todos sentados na frente da casa, só olhando o movimento, ou na praia ainda, aproveitando aqueles últimos dias das férias em Mosqueiro. Todos, menos eu e meu primo, Cesar. Ele inventou de ver um filme e eu, embora fosse tarde para uma criança estar fora da cama, fiquei por ali, já que ninguém tinha reparado mesmo. Melhor pra mim, pensei. Grande erro. O tempo passava e, cada vez mais, me afundava no sofá de tanto pavor. O ano era 1993 e até hoje eu guardo um trauma daquele filme, IT – A obra-prima do medo. Só pelo cenário que tracei acima já dava pra ver que nada de bom sairia dali. Afinal, ele é praticamente um clichê de filmes de terror. Mas, aos dez anos de idade, ainda não tinha pelo gênero o amor que conservo hoje. O Cesar só percebeu o meu estado quando deu uma parada no VHS pra ir beber água e viu que eu fui atrás. Ele começou a rir da minha cara, obviamente, e me mandou parar de assistir. Nem tentei me fazer de gente grande. Corri da sala. A história do palhaço assassino me perseguiu durante alguns meses. Tive pesadelos, demorava pra dormir, entre outros detalhes mais embaraçosos que, claro, não vou contar... Minha mãe só faltou bater no meu primo por ter me deixado assistir ao filme. Enfim. Passado algum tempo, já maior e vibrando a cada novo filme de terror assistido, de todas as vertentes possíveis, li numa daquelas revistas de programação da TV por assinatura que ia passar o tal do IT. Resolvi encarar meu trauma. Com um olhar mais crítico, tive a noção de que o filme – que agora já sabia se tratar de uma adaptação para a televisão, em formato de minissérie, da obra de Stephen King – era bem ruinzinho. Bobo, até. Mas sabe aquela sensação? Um frio que percorre a espinha? Pois é. Tudo voltou. Terminei de assistir e a imagem do maldito palhaço ficou na minha cabeça o tempo todo, com aquela voz docemente assustadora com que atraía as crianças para a morte... Não foi com a mesma intensidade da primeira vez, mas precisei de uma sessão extra de comédias para espantar o medo. Lembrei de tudo isso porque fui procurar uma foto de palhaço no Google para ilustrar uma matéria e, logo de cara, me apareceu a figura do Pennywise, que era como o assassino se apresentava. Um palavrão saiu da minha boca na mesma hora. Não tenho medo de outros filmes com palhaços, encaro numa boa. Mas esse... Eu tenho IT em casa, comprei um dia. Sabem quantas vezes eu assisti? Nenhuma. Quando falo do meu medo, as pessoas ficam loucas pra assistir, pois conhecem meu gosto e estranham essa história. Fiquei até tentado a revê-lo. Quem sabe...
Séries que mostram a rotina do trabalho policial não faltam na televisão. Cops, Lei e Ordem e CSI são alguns dos principais representantes do gênero, que é garantia de sucesso nos EUA há décadas. Apesar de reconhecer a extrema capacidade de reciclagem dos temas abordados nesses programas, admito não ser fã dos mesmos, justamente por conta desse ciclo interminável, da falta de um fio condutor na narrativa. É simplesmente episódico, do tipo assista um hoje e outro daqui a vários meses que você não vai boiar na história. Uma série que inovou nesse aspecto nos últimos anos e ganhou meu respeito foi Dexter, que investiu nos personagens em vez de se limitar a resolver casos, tornando-se bem mais complexa que outros produtos similares. Afinal, o grau de dramaticidade aumenta a partir do nosso envolvimento, nossa preocupação com o destino das pessoas ali presentes. E foi por esse caminho que a MTV resolveu seguir quando decidiu realizar sua própria série com esse tema, Death Valley, cuja primeira temporada está em exibição. A diferença é que a MTV optou também por dificultar as coisas para seus “heróis”. Em vez de bandidos normais, os policiais têm que lidar com hordas sanguinárias de zumbis, vampiros e lobisomens. A UTF (Undead Task Force) é a unidade responsável por conter, “educar” e, se for o caso (90% das vezes), eliminar as criaturas que invadiram a região de San Fernando Valley um ano antes. As histórias dos integrantes vão sendo reveladas aos poucos, assim como a interação entre os parceiros de combate aos mortos-vivos, numa dinâmica bem interessante, já que todos os seus passos são acompanhados pelas câmeras de uma rede de televisão, em um esquema de “falso documentário”. Embora o sangue jorre em grandes proporções, em inúmeras cenas que nos fazem pular do sofá ou roer as unhas de tensão, Death Valley é basicamente uma comédia. De humor negro, claro, mas, ainda assim, uma comédia. Não tem como levá-la a sério. Os episódios duram, em média, vinte minutos e a diversão é garantida, até porque existem “n” possibilidades que podem ser trabalhadas nos roteiros, pois trata-se de fantasia, compromisso zero com a realidade obrigatória das séries policiais tradicionais. A destacar também o belo trabalho de maquiagem dos monstros. São criações inspiradas. E tinham que ser mesmo, já que não houve, digamos assim, um apocalipse. O mundo como conhecemos não acabou e o resultado é que a presença desses seres não está envolta em trevas, eles não surgem em rápidas aparições, que mal nos deixam observar suas formas e características. Eles dividem o espaço com os humanos e, assim, têm que parecer críveis aos olhos do espectador. Enfim, com essa mistura de humor inteligente e horror gore embalado em um formato policialesco consagrado na TV norte-americana, não tenho como não considerar Death Valley um sopro de criatividade no universo dos mortos-vivos, explorado à exaustão ano após ano, mas com poucas obras que realmente se destaquem. Veremos se a qualidade se mantém e a série garante uma nova temporada. Até agora, merece.
A segunda temporada do programa está prestes a estrear e uma websérie foi produzida para dar um gostinho aos fãs. São seis episódios que narram a história de Hanna, a zumbi cortada ao meio que estampou os cartazes da primeira temporada e apareceu no piloto da série. Confira abaixo, na íntegra:
Nunca li nenhum livro ou manual que dissesse que Cinema é história, com começo, meio e fim. Cinema é, acima de tudo, imagem. Terrence Malick entende isso. Aliás, o cineasta não só compreende, como vai muito além. Árvore da Vida é um libelo sobre a Vida e a Morte. Sobre Deus e Natureza. A razão versus a fé. A criação como Biologia e o amor como manifestação divina. Pronto. Nas mãos dos medíocres, seria um prato cheio para melodramas. Mas não para Malick. Não, ele não está interessado em agradar. Mas é subverter, angustiar. E criou um dos filmes mais belos que já vi na vida.
Não há uma história linear. Basicamente, é a de uma família média americana, nas décadas de 50 e 60 que chora a perda de um dos três filhos. A narrativa se desloca no tempo, indo e vindo, mostrando a educação rígida do pai e a doçura no trato com a mãe. Partindo, para a redenção do filho mais velho. Tudo entrecortado e envolvido por belas imagens. Desde a criação do universo. CGI bem usado, diga-se. A beleza do mundo e o conflito com Deus. Porque teria nos abandonado, se fez tudo isso tão belo?
Semioticamente, os planos propostos são elegantes. Planos fechados, baixos, ressaltando o olhar infantil. O despertar do mundo das crianças, da sexualidade, das dúvidas, dos enfrentamentos, diante de um mundo onde Deus teria abandonado (mas como abandonou se as plantas ainda crescem?).
Concordo que não é um filme fácil. Entendo quem saiu das salas de cinema no meio da sessão. Afinal, ficamos acostumados com o manual hollywoodiano de fazer cinema. E o Cinema atual está em crise de idéias. Mas é justamente nesses períodos que surgem as obras primas. Disse que Ilha do Medo era o melhor de 2010. Árvore da Vida é o melhor de 2011. O Primeiro, de Martin Scorsese, que junto com Malick, veio de outra geração em crise: Da década de 1970. É desses caras que os novos cineastas têm que tirar as boas lições.